AGES ou glicantes e tratamentos naturais
- 31 de jul. de 2024
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Atualizado: 18 de mar.
Os Produtos Finais de Glicação Avançada (do inglês, Advanced Glycation End Products — AGEs) são um grupo heterogêneo de compostos químicos complexos, resultantes de reações entre açúcares e proteínas, lipídios ou ácidos nucleicos. Eles são produzidos na fase degenerativa da glicação de macromoléculas biológicas e tendem a se acumular nas células, estimulando diversas vias de sinalização ligadas ao surgimento de doenças crônicas. Por seu alto potencial destrutivo, representam um risco significativo à saúde humana.

CONSEQUÊNCIAS DA AÇÃO DOS AGES NA DERME, JUNTAMENTE COM O ESTRESSE OXIDATIVO
Graças à avaliação clínica detalhada, aliada a exames complementares e um diagnóstico preciso, é possível identificar e abordar os fatores que desencadeiam os sintomas, fortalecendo o organismo como um todo. Neste artigo, veremos como detectar os fatores predisponentes ao acúmulo de AGEs e como conduzir o tratamento com abordagens naturais.
Os AGEs são formados quando moléculas de açúcar se ligam a proteínas ou lipídios no organismo, por um processo acelerado pelo calor, cozimento ou processamento dos alimentos. A dieta é uma fonte significativa desses compostos, e sua ingestão excessiva está associada a diversos problemas de saúde.
Principais Descobertas
Altos níveis de AGEs estão associados à inflamação, estresse oxidativo e aumento do risco de doenças crônicas, tais como:
Diabetes
Doenças cardíacas
Insuficiência renal
Doença de Alzheimer
Os AGEs podem induzir a reticulação do colágeno, levando ao enrijecimento vascular e ao aprisionamento de partículas de lipoproteína de baixa densidade (LDL) nas paredes arteriais. A glicação do LDL promove sua oxidação, contribuindo para a aterosclerose e, consequentemente, para o envelhecimento precoce¹.
Mecanismos de Formação dos AGEs
Existem duas vias principais para a produção de AGEs, que ilustram a relação entre oxidação e glicação:
Via da autoxidação da glicose: A oxidação da glicose na presença de íons metálicos leva à formação de cetoaldeídos, que reagem com grupos amina de proteínas, formando cetaminas e, posteriormente, AGEs².
Via da autoxidação dos produtos de Amadori: Os produtos iniciais da glicação ou produtos de Amadori podem sofrer autoxidação, gerando AGEs e radicais superóxido³.
Os radicais livres são extremamente reativos por possuírem elétrons desacoplados, danificando macromoléculas e alterando suas funções⁴. Em diabéticos, a produção aumentada de radicais livres leva a danos macromoleculares e ao enfraquecimento dos sistemas antioxidantes. Por isso, os antioxidantes desempenham um papel fundamental na prevenção das complicações crônicas do diabetes⁵. A ativação genética desencadeada por esse processo pode resultar em:
Doenças autoimunes
Infecções virais
Apoptose (morte celular programada)
Câncer
Prevenção da Formação de AGEs nos Alimentos
A formação de AGEs induzida pelo calor nos alimentos pode ser prevenida ou reduzida por meio de:
Uso de ingredientes ácidos, como suco de limão ou vinagre
Cozimento com calor úmido (ensopados, cozidos no vapor)
Tempos de cozimento mais curtos
Temperaturas mais baixas
Evitar substâncias que caramelizam com o calor

Glicação e Envelhecimento da Pele
O papel da glicação no envelhecimento cutâneo é significativo e multifacetado. Seu impacto manifesta-se em diversos sinais visíveis, influenciando profundamente a aparência e a saúde da pele.
Aceleração do envelhecimento cutâneo: A glicação acelera o processo natural de envelhecimento. À medida que progride, a pele perde resiliência e flexibilidade devido ao enrijecimento do colágeno e da elastina. Além disso, a capacidade de reparação da pele diminui, acelerando o envelhecimento — efeito mais pronunciado em indivíduos com dietas ricas em açúcar ou expostos a fatores ambientais agravantes⁶.
Sinais visíveis da glicação na pele:
Rugas e linhas finas: Com o enrijecimento das fibras de colágeno e elastina, a pele perde a capacidade de recuperação, formando linhas e vincos permanentes.
Perda de brilho e opacidade: A pele glicada torna-se menos radiante devido ao comprometimento dos processos naturais de rejuvenescimento e acúmulo de células mortas.
Flacidez e perda de firmeza: A degradação do colágeno e da elastina resulta em flacidez, especialmente na linha do maxilar, sob os olhos e no pescoço.
Impacto interno nas células da pele: O colágeno glicado torna-se menos eficiente em suas interações celulares, comprometendo o sistema de suporte da pele. Isso a torna mais vulnerável a estressores externos, como radiação UV e poluição, agravando o envelhecimento⁷.
Prevenção e Mitigação dos Efeitos da Glicação
Estratégias eficazes envolvem mudanças na dieta, uso de produtos específicos e ajustes no estilo de vida.
Mudanças na dieta:
Alimentos a evitar: Reduzir a ingestão de alimentos ricos em açúcar e carboidratos refinados, que elevam rapidamente a glicemia e aumentam a formação de AGEs (ex: alimentos processados, lanches açucarados, pão branco).
Alimentos benéficos: Incorporar alimentos ricos em antioxidantes (frutas, vegetais, grãos integrais, proteínas magras) para neutralizar radicais livres e reduzir a formação de AGEs. Alimentos ricos em vitaminas C e E e suplementos como a carnosina são particularmente úteis.
Produtos e ingredientes tópicos:
Antioxidantes: Vitamina C, vitamina E, ácido ferúlico e extrato de chá verde são fundamentais para prevenir e reparar danos causados pela glicação⁸.
Inibidores de AGEs: Produtos que contenham aminoguanidina e carnosina podem inibir a formação de AGEs.
Rejuvenescedores: Retinoides, ácido hialurônico e peptídeos auxiliam na promoção da produção de colágeno e hidratação da pele glicada.
Modificações no estilo de vida:
Proteção solar: A exposição aos raios UV exacerba os efeitos da glicação. O uso diário de protetor solar de amplo espectro é essencial.
Evitar tabagismo e excesso de álcool: Ambos contribuem para o estresse oxidativo e a formação de AGEs.
Gerenciamento do estresse: O estresse crônico eleva os níveis de açúcar no sangue, promovendo a glicação. Práticas como ioga, meditação, caminhadas e, quando necessário, homeopatias para equilíbrio mental são benéficas.
Compostos Naturais com Ação Antiglicação
Diversos estudos demonstram que compostos naturais são promissores na inibição da formação de AGEs, atuando por mecanismos como bloqueio de sítios de glicação, eliminação de compostos carbonílicos, regulação da glicemia, quelação de metais e neutralização de radicais livres⁹. A tabela a seguir resume alguns desses compostos e suas funções:
Composto Natural | Função Antiglicação | Referência |
Quercetina | Captura de metilglioxal (MGO) e glioxal (GO) | Li et al., 2014¹⁰ |
Lignana | Supressão de NADPH e ROS | Kong et al., 2015¹¹ |
Ácido Clorogênico | Neutraliza a agregação de AGEs | Zhao et al., 2022¹² |
Curcumina | Reduz o acúmulo de colágeno modificado por AGEs | Alizadeh e Kheirouri, 2019¹³ |
Resveratrol | Supressão de metilglioxal (MG) | Ciddi e Dodda, 2014¹⁴ |
α-Tocoferol | Supressão da formação de AGEs em modelos animais | — |
Hesperidina + Estilbeno | Bloqueio de receptores de AGEs (RAGEs) | Li et al., 2012¹⁵ |
Luteolina | Inibição nos estágios inicial e intermediário da glicação | Sarmah et al., 2020¹⁶ |
Plantas com Ação Antiglicante
Diversas plantas medicinais também demonstram potencial antiglicante, conforme sintetizado a seguir:
Família | Espécie | Ação Principal | Ref. |
Theaceae | Camellia nitidissima | Inibição da formação de AGEs por eliminação de metilglioxal | Wang et al., 2016¹⁷ |
Asteraceae | Calendula officinalis | Interrupção da reação de Maillard e prevenção da oxidação in vitro | Ahmad et al., 2012¹⁸ |
Juglandaceae | Juglans regia | Inibição de AGEs iniciais e intermediários | Atta et al., 2023¹⁹ |
Asteraceae | Erigeron annuus | Quelação de metais, redução da ligação de AGEs à hemoglobina | Jang et al., 2008²⁰ |
Ericaceae | Empetrum nigrum | Inibição do acúmulo de AGEs e captura de ROS | Khan et al., 2020²¹ |
Vitaceae | Vitis vinifera | Captura de metilglioxal e inibição da glicação de BSA | Yoon e Shim, 2015²² |
Rosaceae | Crataegus laevigata | Supressão de carboximetil lisina e redução do LDL-colesterol | Sadeghi e Miroliaei, 2022²³ |
Asteraceae | Anthemis nobilis | Proteção contra danos induzidos por frutose | Nagai et al., 2010²⁴ |
Saururaceae | Houttuynia cordata | Captura de metilglioxal | Yoon e Shim, 2015²² |
Lamiaceae | Origanum majorana | Inibição da formação de MGO | Starowicz e Zieliński, 2019²⁵ |
Cyperaceae | Cyperus rotundus | Inibição de processos oxidativos | Ardestani e Yazdanparast, 2007²⁶ |
Amaryllidaceae | Allium cepa | Proteção da formação de BSA-frutose in vitro | Pradeep e Srinivasan, 2018²⁷ |
Schisandraceae | Illicium religiosum | Diminuição da glicação de BSA | Khan et al., 2020²¹ |
Lamiaceae | Origanum officinalis | Inibição da produção de BSA-AGE e HbA1c | Peng et al., 2011²⁸ |
Polygonaceae | Fagopyrum esculentum | Atividade antiglicação por ação antioxidante | Khan et al., 2020²¹ |
Fabaceae | Sophora flavescens | Inibição do desenvolvimento de AGEs | Peng et al., 2011²⁸ |
Lauraceae | Cinnamomum zeylanicum | Inibição do desenvolvimento de AGEs | Talaei et al., 2017²⁹ |
Lamiaceae | Thymus vulgaris | Mitigação da biossíntese de metilglioxal | Jang et al., 2008²⁰ |
Asteraceae | Chrysanthemum morifolium | Inibição de AGEs fluorescentes e N-carboximetilisina | Ho et al., 2014³⁰ |
Abordagem Clínica Integrativa
Na prática clínica, a avaliação do acúmulo de AGEs e dos fatores associados considera múltiplas dimensões do terreno biológico, incluindo:
Qualidade do sono
Padrão alimentar
Nível de atividade física
Equilíbrio do pH e do terreno biológico
Presença de metais tóxicos
Funcionamento do eixo hormonal e da sexualidade
Exposição a drogas, irritantes químicos e intoxicantes ambientais (como campos eletromagnéticos)
Aumento da permeabilidade intestinal, que pode promover deslocamento bacteriano
Capacidade de destoxificação hepática e celular
Todos esses fatores são investigados e abordados durante o processo de cuidado, visando não apenas a redução dos AGEs, mas o fortalecimento integral do organismo.
Referências
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Acesso em: 18 mar. 2026.
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